Monday, 4 November 2013

3 Years of War



3 years of war passed
              
The lofty granite towers of Tecis – Orago’s last bastion in the South – imposed their stone gaze upon the bright red flames in the distance.
“FIRE IN AMALID!” shouted the sentry upon the wall.
The beacon was lit, and the troops stationed in the large building in the middle of the fort ran for their horses. Though not many, among them were the four mightiest warriors of the Mountain Kingdoms. The battalion rode in the cold of night, through low grass and desolate woods, the generals at the point. They wore custom-forged elegant steel armour sets, covered by a black cloak and hood, a polygonal eagle embroidered in a bright blood-red. Behind them, the knights all wore full plate steel. Such was the tradition of the Warlords, a powerful military group who trained the most elite warriors of the land.
Amidst the mist, tall smoke pillars could be seen, lit by the burning fires engulfing the small village of Amalid. The last settlement of the kingdom of Orago, the Easternmost of the two Mountain Kingdoms, was now ravaged by whatever was coming from the Black Mountain. Hamut and Hera, from the other of the Mountain Kingdoms – Inur’l – were still uncomfortable living in once hostile territory. Fighting alongside the enemy, eating and sleeping in their homes, was still unfamiliar. But in war, as in love, everything goes. The horsemen – just about a hundred of them – entered a very dense forest, where the road was so narrow and so dark in the night it would seem almost invisible. So narrow, the horsemen now rode single file. So suffocating, the stars hid. The orange and red fires once so terrifyingly bright were seemingly quenched, lost beyond trunks, branches, and leaves.
This dreaded darkness was broken by an explosion of a million colours, throwing the first half of the soldiers off their horses. The second half got lost in the woods amidst the commotion. Yells and shouts came to everyone’s ears, confusing them. Torches fell in the dried out leaves, and rapidly flames spread though the low grass, lighting the scene. The enemy was on the move to Tecis when they came upon the allied detachment. They showed as dark deformed figures, with pointy ears, giant fangs, some with wings, and others long tails, spikes and such infernal features. In a split of a second the battle was on. Hamut wielded his spear with both hands, and impaled three with the first strike. Hera spun in the air, and threw small blades, piercing the hearts of four. Arati and Jhoser, mighty warriors who could singlehandedly win a battle, fought like dancers to a deadly symphony, cutting everything around them, gently zigzagging between allied soldiers and enemies.
The battle seemed won, but more and more enemy reinforcements were coming from Amalid.
“Fall back!” shouted Hamut.
Without turning their backs on the enemy, the allies started walking back. Many drew their bows to cover their stride. Arati drew a crossbow, Hera drew a blue stone, with a strange, rounded blue symbol. In the withdrawal, some soldiers were killed. They could see the end of the forest, and ran to open field. They ran as fast as possible.
It was then that, without warning, they saw it. The giant the border-folk mentioned. The one who destroyed the fields, took down doors, lifted towers, the one who could blow a soldier away and rip their souls with a single look. He who was upon them, a colossus more than a giant. A creature disproportionally huge, with hellish growls and a petrifying gaze. Seeing such a beast, Hera called upon his deepest energies. All soldiers were calm, and ready for the fight. The monster flew forward, under a rain of arrows. Without seeming to care, he stepped on a handful of soldiers with the first step, and another with the second. Using this as a distraction, others fled, not without taking damage from the enemy army in the back.
“Do something!” Hamut yelled to Hera.
As they ran – now facing the fortress – frightened by the monster, screams could be heard from behind, but they did not look. Hera tried everything to keep them running. He fell flat on the floor, losing grip of the blue stone. Jhoser picked him up and carried him towards the city.
And there the stone lay, in the white mud, trod and trod and trod on. Trod by beast, by man, by monster, by spirit, by fairy. Hid, till someone saw it, took it, and studied it.
Until someone used it, and dominated the mountain-folk, a hero with promises of eternal glory, majestic victories and peace. Someone who would give hope to the Mountain Kingdoms, and conquered the Black Mountain, pushing the traitors beyond the Forest of Ant.

Saturday, 26 October 2013

Yipion - parte 1



“Hamut. Que esse nome iria ser famoso, eu sempre soube. Mas nunca imaginei que pelos piores motivos,” dizia a voz.
E disse muitas coisas, durante tempos e tempos, incessantemente, e conquistou a mente do pequeno Yipion, o menino da Corte, que nem falar sabia.
Como que uma compensação divina pela aparente estupidez do rapaz, possuía uma ávida inteligência, perspicácia e parecia sempre saber o que fazer, mesmo só tendo ainda três anos de idade.
E ele cresceu assim, mudo. E os pais educaram-no, como qualquer rei faz a um filho, porém sempre com algum receio do que o futuro lhe reservaria.
Yipion tinha dezassete anos, e ingressou no exército. Receoso pelo pequeno e aparentemente indefeso rapaz, o pai não o deixou, tentando prendê-lo em casa. Yipion esgueirou-se do palácio, e nunca mais foi visto.
Anos passaram-se e a guerra contra o inimigo continuava em plena força, Yipion nunca tendo sido visto. Até que um dia, durante uma batalha acesa entre os Reinos das Montanhas e o inimigo, um cavaleiro montado num corcel preto, vestido com uma longa túnica preta com finos detalhes a vermelho, adentrou o campo de batalha a toda a velocidade. A cabeça rapada, e a pele repleta de marcas e cicatrizes não deixavam dúvidas de que era um membro de um velho culto de lunáticos adoradores de espíritos.
O general Maratè, que comandava as forças dos Reinos na vasta planície verde que preenchia a vista até ao horizonte, reconheceu-o, e chamou os seus oficiais a si. Mas o vulto negro pareceu não se importar com a batalha, cavalgando indiferentemente em linha reta, em direção ao exército inimigo.
Uma miragem no campo de batalha, pensara Maratè, mas os seus olhos arregalaram‑se quando percebeu que o inimigo também o via, e avançava agora na sua direção com toda a fúria e adrenalina da batalha nos seus palpitantes corações.
“Tomuy! Aquele parece…”
“Yipion!” respondeu Tomuy, o braço direito do general.
“Cruzes credo! O que está ele a fazer? Vai-se matar se não o protegermos,” alertou o general.
Maratè ordenou ao seu batalhão que o seguisse, numa manobra arriscada de flanqueamento. As tropas aliadas, posicionadas a Norte, teriam que contornar toda a primeira linha de ataque inimiga para alcançar o príncipe que se aproximava pelo Oeste. Logo se formou uma longa fileira de soldados aliados, que tentavam proteger os flanqueadores. O movimento das tropas provocou uma natural reação dos inimigos, e mais uma vez os dois exércitos estavam frente-a-frente. Mas a muito custo, Maratè conseguiu alcançar o príncipe, que nesse momento entrava pelas fileiras inimigas adentro, de alguma forma conseguindo evadir os golpes que as criaturas intentavam.
“Estes porcos nojentos…escumalha…destrui-los, destrui-los a todos…” sibilou a voz, num sussurro tão baixo que, com o som da batalha, Yipion quase não conseguiu ouvir. “Ah…coitados, agora querem reaver-nos, marionetas, bonecos de cera, animais inúteis…”
Yipion cavalgou abrindo caminho pelos seres negros, mais negros que o preto, uma ausência total e absoluta de cor. Atravessou por completo o exército, e continuou, em direção à Montanha Preta, sem olhar para trás. O general e os seus oficiais, embora estupefactos, aproveitaram a distração para completar o flanqueamento do inimigo e iniciar a vitória de mais uma batalha.
Noite. À frente de uma fogueira sentava-se Yipion, pensativo. As marcas no seu corpo mostravam todas as mazelas por que tivera passado, e a sua expressão denotava cansaço. Cansaço para com a vida, cansaço para com toda esta missão. Abrigado numa pequena tenda, no sopé da Montanha Preta, olhava frequentemente para cima, ponderando, lembrando. O que pensava, ninguém sabe. Apenas a profunda voz, que ora e vez se manifestava, dava algum sentido à sua vida. A voz tinha-lhe ensinado tudo. O caminho dos monges adoradores, do Fluxo, a arte da espada e do YoPunJi. Mas a voz era louca, demente quase, e Yipion sabia que não se podia deixar contagiar, pois essa loucura lhe dava medo.

Tuesday, 18 December 2012

3º Ano da Guerra



      3º Ano da guerra
                Tecis – o último bastião do Sul do reino de Orago – erguia-se majestosamente com as suas altas torres de granito a olhar as chamas vermelhas ao longe.
     — FOGO EM AMALID! – gritou o guarda da guarita.
                O sinal luminoso foi lançado, e as tropas aquarteladas no grande edifício de pedra no meio do forte saíram a correr para os cavalos. Não eram muitos, mas entre eles estavam os quatro mais poderosos guerreiros dos Reinos das Montanhas. O destacamento cavalgou por entre a noite fria, pelas ervas baixas e pela mata nua, com os generais à frente em cavalos pretos como mandava a tradição. Os soldados atrás vestiam armaduras completas de aço. Eram todos disciplinados, treinados pessoalmente pela ceita militar chamada de Warlords. Os quatro generais vestiam elegantes armaduras de aço feitas à medida, cobertas com um característico manto preto encapuzado, com uma águia poligonal bordada em cor de sangue no peito.
                Por entre a bruma viam as colunas de fumo ao longe, iluminadas pela luz ardente que inundava a pequena aldeia de Amalid, na fronteira do reino de Orago, o reino mais a Este dos dois Reinos das Montanhas, aliados na guerra contra o que quer que fosse que vinha da Montanha Preta. Hamut e Hera, do reino de Inur’l, ainda não se tinham habituado a estar em território que antes fora inimigo, combater ao lado destes, e comer nos seus salões. Mas a guerra, como o amor, não olha a vontades. Os cerca de cem cavaleiros entraram numa zona de vegetação cerrada, onde, na noite, uma estrada de terra negra era pouco visível. As estrelas esconderam-se, e os fogos de luz laranja e amarela, antes tão aterradoramente brilhantes, perderam-se por entre troncos, e ramos, e folhas.
                Uma explosão de cores atirou a primeira metade da coluna de soldados ao chão, e a segunda caiu ou perdeu-se por entre a mata ao encontrar tamanha confusão. Gritos e berros soavam por entre a escuridão. Tochas caíram nas ervas secas. Rapidamente chamas consumiram a folhagem rasteira, iluminando a cena. Os inimigos estavam já em marcha para Tecis, e deram de caras com a guarnição aliada. Figuras negras deformadas, de orelhas pontiagudas, presas enormes, alguns com asas, outros com compridas caudas, espinhos, e feições infernais que tais. Em apenas um segundo a batalha estava lançada. Hamut empunhou a sua lança com as duas mãos e empalou três inimigos de uma vez. Hera rodopiou no ar, atirando pequenas lâminas que cravaram os peitos de quatro. Arati e Jhoser, guerreiros que ganhavam batalhas sozinhos, lutavam como que numa dança mortal, cortavam tudo à sua volta, ziguezagueando por entre soldados aliados e inimigos com gentileza e astúcia.
                Em tudo a batalha parecia estar ganha, mas mais e mais reforços inimigos chegavam de Amalid.
                — Retirada! – gritou Hamut.
                Sem dar as costas à batalha, soldados aliados voltaram para trás. Muitos sacaram dos seus arcos para cobrir a retirada. Arati sacou da sua besta, e Hera da sua pedra azul, com um estranho símbolo arredondado. No reboliço da retirada, vários soldados foram mortos. Viam já o fim da mata, correram para campo aberto. Correram o mais que puderam.
     Foi aí que, sem aviso nem pretexto, o viram. O gigante de que os fronteiriços falavam. O tal, que destruía os campos, que derrubava portas, que levantava torres, que com um sopro esmagava soldados e que com um olhar os desalmava. Esse, que estava na sua frente, um colosso mais que um gigante. Uma criatura de tamanhos desproporcionais, de grunhidos infernais, e de olhar petrificante. Ao ver tamanha besta, Hera fechou os olhos e conjurou a sua mais profunda energia. Todos os soldados ficaram apaziguados, e prepararam-se para o embate. O monstro irrompeu para a frente, enquanto levava uma saraivada de flechas. Mas ele não se importou. Pisou um punhado de soldados com o primeiro passo, e mais outro com o segundo. Aproveitando a abertura, os outros fugiram, mas muitos foram também apanhados pelo exército inimigo nas costas.
    — Faz alguma coisa! – disse Hamut a Hera
    Enquanto corriam – agora de costas para a ação – apavorados de volta à cidade, ouviam-se gritos lá atrás. Hera tentava de tudo, para que não parassem de correr. Caiu redondo no chão, deixando cair a pedra azul. Jhoser apanhou-o e levou‑o às costas até ao forte.
    A pedra lá ficou, na lama branca, pisada e pisada e pisada. Por besta, por homem, por monstro, por espírito, por fada. Escondida, até que alguém a visse, pegasse, e estudasse.
   Até que alguém a usasse, e com ela dominasse os povos das Montanhas, até que um herói aparecesse, trazendo promessas de glória eterna, de vitórias majestosas e de paz. Que desse alento aos Reinos das Montanhas, e eventualmente conquistasse a Montanha Preta de volta, enxotando os traidores para lá da Floresta de Ant.